Artmix Reggae, Festival de
Artes e Música do Algarve 2003.
Eis que chegam finalmente a Portugal os festivais de
reggae, iniciativas rotineiras ao longo de todo o ano em inúmeros países
europeus, mas que nosso país teimavam em não aparecer, pelo menos até ao
passado mês de Junho, quando ocorreu entre os dias 13 3 15 o 1º Festival de Música
e Artes do Algarve- Artmix Reggae Festival, iniciativa
que marcou mais um grande momento do crescente
movimento reggae em Portugal.
Realizado
sob o pano de fundo das belas paisagens da zona serrana algarvia, na localidade
do Azinhal, perto de Castro Marim, o Artmix foi acima de tudo uma aposta na boa
música reggae que se
faz por todo o nosso país, complementada com sons mais alternativos desde o
house, drum & bass até ao trance e ao techno, proporcionados por dj’s e
colectivos portugueses e estrangeiros.
Com
uma área de venda de artesanato, uma tenda de dance music e outra de chill out,
dois palcos, animações e até um mini workshop de danças africanas,
divertimento foi sem dúvida o que não faltou neste festival, onde os pontos
altos foram obviamente, as actuações no palco principal. Com dois cartazes de
luxo, nas noites de sexta e sábado, que se não superaram, estiveram ao nível
dos muitos concertos de reggae nacional que se tem organizado nos últimos anos,
foi o conjunto da margem Sul, Like the Man Said
que teve o privilégio de dar as boas vindas a todos os que se deslocaram a esta
grande concentração de vibrações positivas.
Inicialmente
programados para actuar no palco secundário, foram à última da hora,
“promovidos” ao palco principal, e em boa hora, visto que apesar de
mostrarem evidentes alterações no seu som, os Like the Man Said continuam a
demonstrar a boa qualidade e evolução musical que sempre caracterizaram as
suas apresentações ao vivo. Complementados agora com uma voz feminina, a actuação
dos Like the Man Said, ainda que breve, brindou o público com o seu reggae
característico, moderno e com algumas influências africanas. Destaque para a
presença em palco do vocalista que, em conjunto com o bom entrosamento dos
restantes elementos da banda, consegui transmitir um bom felling e animar uma
plateia que estava prestes a assistir a uma grande noite de reggae.
A
segunda actuação da noite esteve a cargo de Prince
Wadada, que cada vez mais se assume como uma referencia para
todos os amantes da vertente ragga. No entanto, não é só do ragga que vivem
as actuações de Wadada, que alinhou aqui no Artmix um conjunto variado de
influências, desde o puro roots reggae, lovers rock até ao dancehall que,
quando interpretado instrumentalmente, nem sempre atinge o nível que a banda de
Prince Wadada atingiu em certos momentos.
Entre
temas sonantes como “Táxi para África”; “Anabela” ou “Festa do
Reggae” e algum cansaço evidente de Wadada, provocado pela intensidade e potência
que este impõe na sua extraordinária capacidade para o raggamuffin style,
assistiu-se no final a cerca de hora e meia de um bom espectáculo, culminando
com um animado ska, que aqueceu o público, não tão numeroso como se esperava,
mas com uma grande boa disposição e entrega ao espectáculo proporcionado.
Contudo,
o ponto alto da noite e talvez de todo o Artmix, começou com a entrada em palco
de uma das mais recentes bandas de reggae portuguesas, os Mercado
Negro.
Com
o primeiro álbum à espera de Agosto para ser lançado e um single que já toca
nas rádios nacionais, os Mercado Negro podem muito bem vir a tornar-se na nova
referencia máxima do reggae nacional, fruto quer do extraordinário espectáculo
que proporcionam ao vivo, quer da qualidade dos músicos que constituem o
conjunto, alguns deles ex-elementos dos carismáticos Kussondulola, donde se
destacam o conceituado Don Lanterna (teclas) e o vocalista Messias.
Em
interacção contínua com o público desde o primeiro momento, a energia
transmitida na sua mensagem de amor e esperança, contagiou rapidamente um público
que dançou e se rendeu totalmente ao roots afro-style reggae deste Mercado
Negro, onde são também evidentes as influências do “velhinho” rocksteady,
e há ainda lugar a umas interessantes evoluções para o dub, sempre com os
ritmos africanos como pano de fundo.
Com
melodias que prometem, como “Atrás do arco-íris”, “Quem vê caras não vê
corações”, os principais destaques desta primeira grande actuação ao vivo
dos Mercado Negro vão, essencialmente, para o energético Messias, apoiado
vocalmente por uma voz feminina e por uns backing vocals experimentalistas do
guitarrista ( que se destacou com uns pulsantes e hipnóticos solos nas
referidas incursões pelo dub).
A
terminar em beleza, os Mercado Negro despediram-se com um “tributo” à banda
que lançou grande parte dos seus elementos, através de uma versão
electrizante de “Jacaré”, um dos temas mais conhecidos de JahSoba ou
Messias, a cara e mentor deste projecto que promete dar que falar.
A
fechar esta primeira noite, os cabeças de cartaz Terrakota,
trouxeram até ao Algarve a sua fusão universal de ritmos, com uma predominância
para as sonoridades jamaicanas.
Pouco
há a dizer deste conjunto que ganha cada vez mais adeptos. Quer em Portugal
quer no estrangeiro (principalmente no Sul da Europa), e que nesta 1ª edição
do Artmix, demonstrou que a paragem efectuada nos últimos meses, não afectou
minimamente a qualidade musical e a energia que dispensam nos seus concertos.
A viagem à volta do globo que a música dos
Terrakota proporciona foi aqui nada mais que um alinhamento do seu último álbum,
com um novo tema “Burn Babylon”, a ganhar o destaque do bom roots reggae que
os Terrakota também sabem produzir. As quase duas horas de concerto agradaram
certamente à legião de fãs que os seguiram até ao Algarve e apesar do cansaço
provocado pelas já longas horas de animação e movimento, o espectáculo
esteve ao nível que os Terrakota já habituaram todos os que os seguem, e ficou
aqui evidente que, apesar de não serem uma banda de reggae de raiz, continuam a
dar o seu apoio e contributo para que este estilo musical continue a crescer no
nosso país.
Já
dentro dos moldes inicialmente previstos, o 2º dia do
Artmix Reggae Festival começou ao fim da tarde no palco secundário,
com a actuação dos Original Electro Groove,
primeiro projecto consistente de reggae, que surgiu no Algarve desde há muito
tempo para cá.
Depois
de um longo momento de problemas técnicos, durante
o qual o elementos do grupo algarvio se entreteram a animar o numeroso público
que aguardava o concerto, este acabou por ser um misto de
animação e entretenimento, com demonstração de talento musical.
Sopros,
percussão e scratch, acompanham os habituais baixo, bateria e guitarra ritmo do
reggae, para criar uma mistura de sons hipnóticos e psicadélicos que alegraram
em muito esta actuação, de um grupo que vais buscar as suas influências não
só ao reggae, mas também ao jazz, jungle e funk.
Perante
o constante e incansável apoio do público, que certamente ficou surpreendido
com a alegria e vibrações positivas que circundam este jovem conjunto farense,
um dos momentos grandes a focar foi a participação improvisada de Prince
Wadada, que por duas vezes acrescentou o sue poderoso raggamuffin aos ritmos
inovadores dos Electro Groove, que dado o adiantado da hora, tiveram mesmo que
“mandar embora” um público que se deslocou para o recinto principal,
convencido que também estes Original Electro Groove mereciam lá tocar.
Ainda
os Original tocavam, já o conjunto nortenho Sativa
abria a noite no palco principal.
Claros
adeptos do dub, este projecto, que muito tem contribuído para a divulgação do
reggae e das mensagens conscientes de Jah na cidade do Porto, apresenta um som
muito consistente que nos seus momentos de reggae puro faz lembrar o mítico
grupo norte-americano de punk- reggae Bad Brains.
Apesar
de se demarcarem um pouco das sonoridades que a maior parte dos grupos
apresentaram neste festival, com a versatilidade vocal, os ritmos africanos das
percussões e o groove combinado o baixo e guitarra, os Sativa parecem ter tudo
o que é necessário para se assumirem como um dos bons valores do reggae
inovador que se faz em Portugal.
Amor,
paz e união, é esta a mensagem da mais conhecida família rastafari
portuguesa, os One Love Family.
A
habitual ternura e simpatia deste grupo, fez-se aqui sentir desde o primeiro
momento de um melhores concertos dos One Love Family, que entraram em palco com
a formação júnior, a maravilhar o público com a extraordinária evolução
que demonstraram neste concerto.
Já
com o vocalista brother Jahlu e a baixista sister Paula em palco, o momento mais
interessante da noite ocorreu com a apresentação de um breve e curioso medley
de alguns dos temas mais conhecidos de Bob Marley, aqui revisitados no característico
roots dos One Love Family, agora complementado com a suavidade de uma melódica,
a cargo da teclista sister Rita. Concerto muito positivo, a demonstar uma grande
evolução na qualidade musical desta família que justifica, cada vez mais, a
aposta na gravação de um álbum.
Enquanto
se aguardava pelo concerto dos Kussondulola,
um dos mais esperados do festival, a organização reservou uma surpresa ao público,
incluindo no programa uma breve actuação de um grupo de Lisboa de danças
africanas, que com um conjunto de pouco mais de seis percussionistas e um vasto
leque de dançarinos, aqueceu as hostes
com
os ritmos africanos no seu mais puro estado, uma das constantes presenças ao
longo de todo o festival.
Sem
necessitarem de apresentações, os Kussondulola, depois de uma longa ausência,
voltaram ao Algarve (o seu último concerto por estas bandas remontava há já
alguns anos atrás), para fechar o Artmix Reggae Festival.
A
formação mais
reduzida que o habitual (faltaram as sempre animadas secção de sopros e
backing vocals) não influenciaram elevado nível que os Kussondulola sempre
apresentam nos seus concertos, no entanto o vocalista Janelo, com evidentes
problemas na sua voz e talvez um pouco esgotado, não demonstrou a habitual
vivacidade , alegria e boa disposição que distinguem a sua presença em palco.
Depois de várias saídas de cena e uma interpretação em claro esforço de
alguns dos seus temas mais famosos, como “Nós Somos Rastaman”; Rocksteady”;
“Amizade”, e um tema novo intitulado “Meninas são Crianças” , durou
pouco mais de uma hora até já não haver condições físicas para Janelo
continuar a sua actuação e o concerto ficou-se mesmo por ali.
Esperamos
no entanto voltar a ver os sempre bem vindos Kussondula por terras do Algarve e
aguarda-se com grande expectativa o novo álbum ao vivo, a sair para breve,
daquela que continua a ser a maior banda portuguesa de reggae da actualidade.
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Não teve um final em beleza mas foi, na sua totalidade, uma grande festa do
reggae, e para primeira experiência, este Artmix Reggae Festival não correu
nada mal, sendo de destacar o esforço da organização em levar a cabo um
evento de 3 dias, com a presença da maioria das bandas portuguesas de reggae
(ficaram de fora conjuntos como os Montecara ou os Philarmonic Weed). Experiência
que à partida poderia significar um marco de mudança na cena reggae em
Portugal, só não terá tido tal influência devido à fraca afluência do
massive português, que incompreensivelmente não aderiu tanto como se
esperaria. No entanto, vai desde jah aqui o nosso maior agradecimento e respeito
a toda a organização desta iniciativa pioneira no nosso país, que esperamos
voltar a presenciar para o próximo ano.
Artigo por Ricardo
Duarte.
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