Festival Músicas do Mundo Sines 2003
Já há
alguns anos, que o Festival de Músicas do Mundo em Sines, ganhou o seu lugar de
destaque na cada vez mais preenchida agenda de festivais de verão,
principalmente pela aposta dos organizadores em estilos musicais variados e em
grupo, regra geral, mundialmente aclamados no seu universo musical mas,
praticamente desconhecidos do grande público português. São, no entanto,
estes os ingredientes que fazem do FMM uma lufada de ar fresco alternativa, ao
batido e padronizado formato pop/rock dos grandes festivais de verão no nosso
país.
A edição
deste ano não foi excepção e, mais uma vez, o secular e simpático Castelo de
Sines foi presenteado, entre os dias 24 e 26 de Julho, com conjuntos oriundos de
vários pontos do globo: desde o Afeganistão, África do Sul,
Cabo-Verde,
passando por França e Portugal, até ao Brasil e
Estados Unidos. A grande atracção
e louvados “vencedores” desta festa eclética, acabaram por ser o ícones
fundadores do Ska, os jamaicanos Skatalites. Depois
de em 2001, Sines ter recebido, com efusiante sucesso, a conceituada secção rítmica
Sly&Robbie em conjunto com os Black Uhuru, eis que a 8ª edição do FMM,
voltou a acolher um conjunto de lendas vivas da música jamaicana. Formados
há praticamente 40 anos, em 1964, os Skatalites eram então uma congregação
de grandes nomes do panorama musical caribenho e sul americano da época. Foram
talentos como os de Don Drummond, Roland Alphonso, Tommy McCook, Jonh
“Dizzy” Moore, Lester Sterling, Jerome Hines, Jackie Mitto, Lloyd Brevett e
Lloyd Knibb que criaram a fusão entre estilo como o Boggie Woggie blues,
R&B, jazz, mento, calypso e ritmos africanos, originando o que viria a ser
conhecido como Ska, estilo antecessor e impulsionador do rocksteady e do reggae.
O
percurso dos Skatalites teve tanto de extraordinário como de irregular, uma vez
que, depois de um início simplesmente arrasador e inovador, durante o qual não
só criara mo 1º estilo totalmente originário da Jamaica,
como actuaram também
como banda de suporte para estrelas internacionais como Jimmy Cliff, Delroy
Wilson, Peter Tosh ou Bob Marley, o encontro com os habituais problemas do
sucesso fez com que, na sua formação original, os Skatalites não durassem
mais de ano e meio.
O período
de cerca de duas décadas que se seguiu à separação, originou a criação de
novos grupos de renome como “Roland Alphonso & The Soul Vendors” ou
“Tommy McCook & The Supersonics”. Ao longo dos anos, a qualidade, génio
e sucesso da grande maioria dos seus elementos foi-se cimentando e, em Julho de
’83, a ansiada reunião ocorreu, resultando numa estonteante actuação no
Sunsplash Festival em Montego Bay. Desde
então, álbuns como “Return of the Big Guns”; “Skavoove”; os nomeados
para Grammy “Hip Bop Ska” e “Greetings from Skamania”; tours pelos E.U.A,
Ásia e Europa, e colaborações com grandes nomes como Ken Boothe, Ernest
Ranglin ou Cedric Brooks, preencheram os últimos 20 anos de carreira, que
culminaram no sue último álbum de originais “From Paris With Love”, autêntica
obra prima lançada em 2002 e que serviu de mote para a actuação em Sines.
E
foram nada mais do que 6 mil. os que lotaram o Castelo de Sines para assistir à
estreia dos Skatalites no nosso país, no encerramento do FMM 2003. Qualquer
que fosse o estado de espírito dos presentes antes do inicio do concerto, a
contagem decrescente para o cartão de boas vindas que foi “Freedom Sounds”,
resultou num só sentimento: comunhão. Comunhão entre o público, comunhão
com a vibração energética que explode entre cada nota de tom jazzístico,
comunhão com o groove rítmico do contrabaixo do septuagenário Lloyd Breveet.
Temas
instrumentais como “Latin Goes Ska”, Phoenix City” ou “Guns of Navarone”,
interpretados num característico jazz style, preencheram a maior parte das
cerca de duas horas de espectáculo, sempre com a dupla Lloyd Knibb e Lloyd
Breveet
no controle de toda a situação, a tornarem indescritíveis os
resultados de tocarem juntos há mais de 50 anos!
Entre
os muitos clássicos instrumentais, houve ainda lugar a meia dúzia de temas que
contaram com a participação das vozes , umas vezes de Sandra Brooks, que no
seu estilo soul destacou-se com uma bonita versão de “Simmer Down” dos
Wailers; outras vezes de Lord Tanamo, veterano destas andanças do Ska, a
interpretar aqui temas mais virados para o rocksteady, entre os quais um
especialmente dedicado a Don Drummond, elemento original dos Skatalites, que
antes da sua trágica morte em 1969 numa instituição mental, atingiu o
estatuto de um dos melhores trompetistas de jazz jamaicanos, equiparado várias
vezes aos grandes do jazz do sul dos Estados Unidos.
Foi
com os divertidíssimos saxofonistas Lester Sterling e
Cedric Brooks a
aproveitarem todo e qualquer momento para se deixarem levar em solos
exemplarmente conjugados, que irrompeu nos céus o já habitual fogo de
artificio, sinal de encerramento do FMM. Acompanhado pelo soberbo “Rock Fort
Rock”, ao qual se seguiu pouco depois uma segunda interpretação da noite de
“Freedom Sounds”, o concerto ficou-se pela autentica invasão de palco de
todos os que quiseram partilhar o momento especial a que se assistia, Maios
perto destas autenticas lendas da música que, apesar da avançada idade de
grande parte dos seus elementos, reflectem em palco uma união com a música e
com a crença em Jah únicas, que os dota da capacidade de fazerem da sua obra
musical, algo de eterno, mesmo antes de tal ser necessário.
“Glory
to the Sound” é, ao fim ao cabo, o grande e final propósito dos eternos
Skatalites.
Por :
Ricardo Jorge Duarte
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